Teatrutopia

Por que falar de teatro?

Não basta ao teatro apontar para fora, denunciar o cálculo, o descarte, a desigualdade que atravessam a sociedade, como se ele mesmo estivesse a salvo daquilo que denuncia.

O teatro é necessário?

Por que falar de teatro? São perguntas que me acompanham. Tenho certeza de que, para muita gente, as respostas são fáceis. Vão dizer que sim, o teatro é necessário. Mas por quê? Porque, vão dizer, é um espaço de encontro, de representação das questões importantes para a humanidade. Sim, ele é. Mas basta, diante de um mundo que cada vez mais é regido pela lógica da gestão, do cálculo, do rendimento, onde tudo, inclusive o encontro, precisa provar sua utilidade para justificar seu direito de existir?

Desconfio da facilidade dessa resposta. Não porque ela esteja errada: o teatro é, de fato, encontro; é, de fato, representação, mas porque essas palavras, ditas depressa demais, acabam funcionando como um artifício. Dizemos “espaço de encontro” e seguimos adiante, como se a fórmula já tivesse feito o trabalho de pensar. E o que fica de fora, quando respondemos assim tão rápido, é justamente o que mais importa: em que mundo esse encontro acontece? Sob que condições? A que preço, e às custas de quem?

Porque não existe teatro fora do mundo. Existe teatro em salas que são despejadas. Existe teatro que se faz apesar de (apesar do fomento cortado, do espaço demolido, do corpo cansado de outro trabalho durante o dia). E é exatamente aí, nesse apesar de, que a pergunta “o teatro é necessário?” deixa de ser retórica e se torna urgente. Porque a resposta fácil – sim, é necessário, é espaço de encontro – não explica por que, mesmo sendo necessário, ele segue sendo o “primeiro” a ser cortado, o primeiro a ser tratado como supérfluo, como luxo, como algo que a sociedade pode dispensar quando as contas não fecham.

Talvez a pergunta certa não seja “o teatro é necessário?”, mas outra, mais incômoda: necessário para quem, e segundo que critério de necessidade? Um mundo regido pelo cálculo tem sua própria régua do que é necessário  (e o teatro ou melhor certo tipo de teatro, quase sempre, não passa nela). É por isso que ele precisa ser pensado politicamente, e não apenas celebrado poeticamente. Não basta dizer que o teatro emociona, que o teatro une, que o teatro representa a condição humana. É preciso perguntar: por que, apesar de fazer tudo isso, ele continua sendo tratado como dispensável? A resposta não está no teatro. Está na sociedade que decide, todos os dias, o que vale e o que não vale a pena sustentar.

É desse lugar que nasce este blog – e é desse lugar, também, que nasce seu nome.

Teatrutopia carrega, dentro de si, uma palavra que talvez pareça deslocada depois de tudo o que acabei de dizer: utopia. Deslocada porque, num mundo regido pelo cálculo, falar em utopia soa quase ingênuo – como se bastasse sonhar com um mundo melhor para que o teatro justificasse sua existência. Não é disso que se trata. Fredric Jameson, em Arqueologias do Futuro, propõe algo mais exigente: a utopia não vale pelo que consegue descrever de um futuro melhor, mas pelo que revela sobre a nossa própria incapacidade, aqui e agora, de imaginar algo radicalmente diferente do presente. O valor político da forma utópica estaria menos na promessa de um mundo outro do que no modo como ela expõe, por contraste, os limites históricos – e não naturais – daquilo que somos capazes de conceber como possível.

É nesse sentido preciso que quero pensar o teatro como espaço utópico. Não porque o palco ofereça soluções, programas, mundos perfeitos a serem copiados. Mas porque o teatro, quando encena outra disposição de corpos, outro uso do tempo, outra distribuição de quem fala e quem é ouvido, produz um estranhamento semelhante ao que Jameson atribui à utopia: ele não resolve nada, mas torna visível (mesmo que por um instante, mesmo que de forma incompleta) que o modo como vivemos não é o único modo possível de viver. Essa exposição do limite é, ela mesma, um ato político. Talvez o mais político dos atos que o teatro seja capaz de realizar.

É a partir desse ato político que se pode dizer com mais clareza o que este espaço se propõe a fazer. Teatrutopia não vai falar de teatro como quem fala de um objeto isolado, autossuficiente, que basta a si mesmo. Vai falar de teatro como quem fala de política, de sociedade, de disputa (porque é isso que o teatro é, sempre foi, e talvez hoje mais do que nunca precise voltar a ser assumidamente). Aqui, a pergunta “o teatro é necessário?” não vai ser respondida de uma vez, num primeiro texto, para nunca mais ser levantada. Vai ser a pergunta que sustenta o blog inteiro – porque é justamente o tipo de pergunta que não se fecha, que continua produzindo sentido cada vez que é feita de novo, em cada novo espetáculo, em cada novo corte de verba, em cada nova sala que resiste.

E não vai ser só o teatro. A pergunta que abre este texto – o que é necessário, e segundo qual critério? – não é exclusiva de uma linguagem. Ela atravessa o cinema, a literatura, todas as formas que, à sua maneira, também encenam outra disposição do sensível e por isso também são as primeiras a serem tratadas como dispensáveis quando o cálculo decide o que vale a pena sustentar. Falar de teatro, aqui, será muitas vezes um modo de entrar numa pergunta maior, que outras linguagens colocam com igual urgência (e Teatrutopia quer ser também esse espaço de trânsito, onde o teatro conversa com essas outras formas, em vez de se isolar delas).

Mas é preciso dizer com mais precisão o que significa pensar o teatro aqui. Não se trata de tomá-lo como objeto fechado sobre si mesmo, a ser descrito, catalogado, elogiado. O teatro interessa a este blog também (talvez sobretudo) como instrumento: um modo de pensar a sociedade, a política, e aquilo que se poderia chamar de condução humana – o modo como corpos são conduzidos, dispostos, autorizados a falar ou silenciados, tanto dentro da cena quanto fora dela. Porque toda cena é, também, um governo: um arranjo de quem ocupa o centro e quem fica à margem, de quem tem tempo de fala e quem só tem o gesto, de que corpos podem se mover livremente e quais precisam pedir licença. Pensar essa condução dentro do teatro é uma forma de aprender a reconhecê-la fora dele – na cidade, no trabalho, na vida cotidiana, onde ela raramente se declara como governo e por isso é mais difícil de contestar.

Mas essa condução não é privilégio do mundo lá fora. Vivemos (e talvez seja essa a palavra mais exata para o que nos cerca) num mundo fraturado, numa sociedade fraturada: onde a fissura não se fecha, mas também não rompe de vez, e por isso segue produzindo efeitos, reorganizando tudo em torno de si. Pensar o teatro diante desse mundo não pode significar apenas pensar o teatro sobre a fratura, como quem observa de fora um objeto de análise. O desafio maior é outro: perguntar se o próprio teatro, enquanto instituição, não está ele também fraturado – e se, por isso, precisa ser questionado em sua forma instituída, e não apenas convocado como instrumento de crítica ao mundo.

É preciso voltar à mesma pergunta contra ele: que corpos o teatro também exclui? (exclui?) Que hierarquias reproduz em nome da arte, da tradição, do “talento”? Que formas instituídas (cênicas, dramatúrgicas, qual público e que corpo ocupa naturalmente o centro da cena) permanecem intocadas justamente porque o teatro se acostumou a pensar-se como o lugar automaticamente do lado certo da história? Pensar o teatro fraturado exige, portanto, provocar o teatro enquanto instituição. E essa provocação, antes de ser dirigida a qualquer pessoa, é dirigida a mim mesmo, e a este blog.

Resta, talvez, uma última questão, incômoda (parece) para quem decide, hoje, abrir um blog: porque escrever sobre teatro, arte num tempo em que a informação já excede, de muito longe, nossa capacidade de processar? Criar mais um texto, mais um endereço para disputar a atenção parece um gesto contraditório.

Entretanto, o excesso de informação não é o mesmo que excesso de pensamento. Somos bombardeados com dado, notícias e opiniões instantâneas, mas raramente somos  solicitados a parar, a “ficar com o problema”, como diz Donna Haraway. O que falta não é conteúdo (também é); é tempo de permanência. A ideia do blog não é competir com esse excesso, com a velocidade, mas ser, deliberadamente, uma espécie de gaguejo do pensar, quer dizer, uma forma ensaística de romper com os modos habituais de pensar. Escrever sobre teatro, arte e sua relação com a sociedade, com a política, não é mais uma coisa a somar ao excesso; é, na medida do possível, uma tentativa pequena de suspensão na lógica que rege esse excesso, uma insistência, uma crença (porque não?) em que ainda vale parar, permanecer, pensar devagar.

Este é, então, um convite: pensar teatro (e outras linguagens) sem separá-los de quem o faz, do mundo que os cerca, do Estado que os financia ou os abandona, da cidade que os acolhe ou os expulsa, da política que decide o que merece existir. Um convite a desconfiar das respostas fáceis (inclusive das minhas) e a insistir na pergunta, porque é ela, mais do que qualquer resposta pronta, que mantém essas formas vivas como problema.

Comecemos por aí.